Figueiredo se reúne com embaixador dos EUA para tratar de espionagem
Fantástico mostrou que Dilma foi alvo de ação de espionagem dos EUA.
Ministro das Relações Exteriores conversou com o embaixador no Itamaraty.
O ministro das
Relações Exteriores,
Luiz Alberto Figueiredo, se reuniu na manhã desta segunda-feira (2) com
o embaixador norte-americano no Brasil, Thomas Shannon. A reunião, no
Palácio do Itamaraty, foi marcada para tratar sobre a denúncia,
divulgada no
Fantástico no domingo, de que ações de
espionagem do
governo dos EUA incluíam como alvo a presidente Dilma Rousseff.
Após a reunião, o embaixador Thomas Shannon saiu sem falar com a imprensa. O Itamaraty e a
embaixada americana ainda não comentam o que foi dito pelo ministro e pelo embaixador no encontro.
Pouco depois, por volta das 11h, a presidente Dilma convocou uma
reunião extraordinária no Palácio do Planalto para falar sobre
espionagem, segundo o
G1 apurou. A presidente está reunida com ao menos cinco ministros.
Na noite de domingo, após a reportagem ter revelado que a presidente Dilma era
alvo das ações de espionagem, o governo já havia manifestado que iria pedir explicações para Thomas Shannon.
Segundo o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, outras
providências que o governo vai tomar são: cobrar explicações formais
do governo
dos Estados Unidos e recorrer aos órgãos internacionais, como a ONU,
para discutir a violação de direitos de autoridades e cidadãos
brasileiros.
Denúncia
Documentos classificados como ultrassecretos, que fazem parte de uma
apresentação interna da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em
inglês) dos Estados Unidos, obtidos com exclusividade pelo Fantástico,
mostram a presidente Dilma Rousseff, e o que seriam seus principais
assessores, como alvo direto de espionagem da NSA. Um código indica
isso.
O jornalista Glenn Greenwald, coautor da reportagem, foi quem recebeu
os papéis das mãos de Edward Snowden - o ex-analista da NSA que deixou
os EUA com documentos da agência com a intenção de divulgar o sistema de
espionagem americano no mundo.
Glenn afirmou que recebeu o documento na primeira semana de junho,
quando esteve com Snowden em Hong Kong. “Ele me deu esses documentos com
todos os outros documentos no pacote original.”
O pacote tinha milhares de documento secretos. Glenn analisou esses
papéis com Snowden durante uma semana em Hong Kong. Pouco depois,
Snowden fugiu para a Rússia, onde passou 38 dias na área de trânsito do
aeroporto de Moscou, até ter seu pedido de asilo aceito no país.
Durante a produção, a reportagem conversou com Snowden por um programa
de bate-papo protegido contra espionagem. Escondido em algum ponto do
território russo, ele disse que por exigência do governo local não pode
comentar o conteúdo dos papéis, mas disse que acompanha a repercussão
que os documentos estão tendo pelo mundo, inclusive no Brasil.
Fantástico: como é que a gente pode avaliar o documento e saber se foram operações que foram consumadas, e não apenas projetos?
“Ficou muito claro, com esses documentos, que a espionagem já foi
feita, porque eles não estão discutindo isso só como alguma coisa que
eles estão planejando. Eles estão festejando o sucesso da espionagem”,
afirmou Glenn.
Os documentos mostram que foi feita espionagem de comunicações da
presidente Dilma com seus principais assessores. Também é espionada a
comunicação dos assessores entre eles e com terceiros.
A apresentação secreta se chama "filtragem inteligente de dados: estudo
de caso México e Brasil." Segundo a apresentação, o programa
possibilita encontrar, sempre que quiser, uma "agulha no palheiro."
O palheiro, no caso, é o volume imenso de dados a que a espionagem
americana tem acesso todos os dias, espionando as redes de telefonia,
internet, servidores de e-mail e redes sociais. A agulha é quem eles
escolherem.
No documento, de junho de 2012, são dois alvos: o presidente do México,
Enrique Peña Nieto, então candidato líder nas pesquisas para a
presidência, e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff.
Como funciona
Selecionado o alvo, são monitorados os números de telefone, os e-mails e
o IP (a identificação do computador). É feito o mesmo para os
interlocutores escolhidos - no caso, assessores.
O que eles chamam de um “pulo” é toda a comunicação entre o alvo e os
assessores. Um “pulo e meio” é quando os assessores conversam entre
eles. “Dois pulos” é quando eles conversam com outras pessoas.
Investigação de Peña Nieto
Para espionar o então candidato mexicano Peña Nieto, o serviço de
segurança internacional da NSA para América Latina - fez uma ação
intensiva. Para isso, usou dois programas - um deles é chamado "Mainway"
e serve para coletar o grande volume de informações que passa pelas
redes de comunicação.
As mensagens de texto por telefone do candidato também foram
interceptadas, usando o programa "Association", que pega as informações
que circulam nas redes sociais. Daí, as mensagens vão para outro filtro -
o "Dishfire" - que busca por determinadas palavras-chave.
Sob o título "mensagens interessantes", está a prova de que o conteúdo
das mensagens foi acessado. Dois trechos são citados. Num deles, Peña
Nieto conta quem seriam alguns de seus ministros - que só tomariam posse
seis meses depois da eleição.
Investigação da presidente Dilma
Na sequência, vem a explicação de como foi feita a espionagem da
presidente Dilma. "Goal" é o objetivo da operação: "melhorar a
compreensão dos métodos de comunicação e dos interlocutores da
presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e seus principais assessores".
O que eles chamam de "sementes" são os endereços eletrônicos e números de telefones monitorados.
Um dos programa usados pela NSA é chamado de "DNI selectors" - que
segundo outro documento vazado por Snowden, captura tudo o que o usuário
faz na internet, incluindo o conteúdo de e-mails e sites visitados.
Um gráfico mostra toda a rede de comunicações da presidente com seus
assessores. No gráfico, cada bolinha representa uma pessoa.
A imagem ampliada mostra que legendas ou nomes de quem teve a comunicação interceptada foram apagados para a apresentação.
No documento, não há exemplos de mensagens ou ligações entre a
presidente e seus ministros, como aconteceu quando o agora presidente do
México foi mencionado.
Mas na última página o documento diz que o método de espionagem usado é
"uma filtragem simples e eficiente que permite obter dados que não são
disponíveis de outra forma. E que pode ser repetido." Se pode ser
repetido, tudo indica que foi levado a cabo.
Conclui, ainda, dizendo que a união de dois setores da NSA teve sucesso
contra alvos de alto escalão: Brasil e México. Alvos importantes, que
sabem do perigo de espionagem e protegem sua comunicação.
Novamente, se
houve sucesso é porque foram exemplos reais.