Sérgio Henrique Santos e
Roberto Lucena* - repórteres Tribuna do Norte
No
Dia de São José, os sertanejos tiveram um alento que sinaliza, de
acordo com a crença popular, para um 2013 chuvoso. Segundo dados da
Empresa de Pesquisa Agropecuária do RN (Emparn), entre o período das 7h
da manhã de segunda e as 7h da manhã de ontem, 19, choveu em 46
municípios potiguares. À tarde, também houve registro de chuvas em
municípios como Pau dos Ferros, Caicó e Angicos. E o interior do Rio
Grande do Norte também tem boas notícias meteorológicas para esta
quarta-feira (20). A previsão é de céu parcialmente nublado com pancadas
de chuva em todo o Estado.
Sidney Silva
Em Caicó, o céu ficou nublado e as chuvas ultrapassaram 100 mm
Para o início da próxima semana, provavelmente as chuvas vão
continuar, segundo o meteorologista da Emparn, Gilmar Bristot. "As
previsões não são feitas a longo prazo porque este ano as chuvas estão
muito irregulares e em condições climáticas com muita variação. Por
isso, a cada três ou quatro dias precisamos fazer uma reavaliação da
previsão", informou Gilmar Bristot, reconhecendo que isso causa
apreensão por parte dos agricultores, porque eles precisam de tempo e
antecedência para preparar a colheita.
Na manhã de ontem, choveu
1,3 milímetros na capital. No interior, as maiores precipitações foram
registradas pela Emparn nas cidades de Serrinha dos Pintos, com 80 mm,
Martins, com 75 mm e Tenente Ananias, com 70 mm, todas no Alto Oeste.
Também ocorreram chuvas consideradas relevantes pela Emparn em cidades
do Seridó potiguar.
A ocorrência dessas precipitações está de
acordo com o estudo da "presença de instabilidades associadas à Zona de
Convergência Intertropical e à circulação ciclônica dos ventos em altos
níveis da atmosfera", feita pela Emparn para o período. No entanto, a
Emparn ainda não tem previsão de bom inverno para 2013. Na última
reunião dos meteorologistas do Nordeste, foi identificada uma tendência
de chuvas abaixo do normal e irregulares entre os meses de março e maio
deste ano, o que poderá comprometer o abastecimento e, consequentemente,
as atividades da agricultura e da pecuária.
Nessa época do ano,
as chuvas são esperadas principalmente por causa dos efeitos da
estiagem prolongada e da crise no abastecimento. Para se ter uma ideia
dos efeitos da seca, a Companhia de Águas e Esgotos do RN (Caern)
diminuiu em 30% a vazão da maior adutora do Estado, a Monsenhor
Expedito. Isso afeta diretamente a oferta de água em municípios das
regiões Agreste e Trairi. A governadora Rosalba Ciarlini chegou a apelar
para que a população diminua o consumo de água, e ampliou a situação de
emergência para 144 municípios, através de novo decreto de calamidade.
O
colapso pode, inclusive, provocar racionamento d'água em alguns
municípios. Isso já acontece em cidades como Barcelona e São Paulo do
Potengi, que só têm água nas torneiras uma vez por semana. Para
reavaliar as previsões, os meteorologistas volta a se reunir hoje na 5ª
Reunião de Análise Climática para a Região Nordeste do Brasil, no Recife
(PE). O encontro termina amanhã com a divulgação de um novo relatório.
Agricultores renovam esperança
De
pés descalços e vestida com uma bata amarela, Maria da Conceição, 23
anos, era mais uma entre os milhares de fiéis que participaram, na manhã
de ontem, da missa solene em homenagem a São José, no município de
Angicos, a 171 quilômetros de Natal. O santo, que é padroeiro da cidade,
é reverenciado pelos sertanejos. Para eles, o dia 19 de março
representa uma data importante. É o início do inverno. Se chove nessa
data, é sinal de fartura no campo.
Mas durante a cerimônia campal
iniciada às 9h30, apesar do céu estar cheio de nuvens, não caiu nenhuma
gota d'água. Pelo contrário. O sol forte e uma temperatura de 30°C
obrigou o uso de guardas-chuvas, protetor solar ou a procura por
qualquer sombra possível. Mesmo assim, os católicos não desanimaram.
"Vim pagar uma promessa. Minha mãe se recuperou de uma fratura no braço e
eu devo esse milagre a São José. Não importa se faz sol forte. Chego
cedo e fico até o final", disse Maria da Conceição.
Segundo a
Polícia Militar, cerca de cinco mil pessoas participaram do evento que
teve como celebrante o arcebispo emérito da arquidiocese de Natal, Dom
Matias Patrício. Durante a homilia, o religioso, que passou a infância e
parte da juventude em Angicos, falou sobre a importância de São José na
vida de Jesus Cristo e, por consequência, na Igreja Católica. "São José
promoveu o plano de Deus. Foi o pai adotivo de Jesus Cristo a quem deu
educação. Era um homem simples, fiel e humilde, mas que foi capacitado
por Deus para sua missão. Assim é conosco. Deus nos dá a capacidade de
enfrentar os obstáculos", disse.
A missa solene foi a segunda
celebração do dia. Mais cedo, às 6h, o pároco da cidade, padre Severino
da Silva Neto, celebrou uma missa dentro da matriz de Angicos. À tarde,
foi realizada a procissão solene e missa de encerramento da festa do
padroeiro, que teve início no dia 9. Segundo o pároco, as expectativas
com o evento foram superadas.
"O povo de Deus participou com
fervor e devoção. Acredito que isso ocorreu devido à seca desse ano. O
povo não tem mais a quem recorrer. Só podem recorrer aos céus, a Deus",
colocou. O padre disse ainda que, no dia da abertura da festa, choveu em
Angicos. Na tarde de ontem a chuva voltou a cair no município. "O povo
ficou animado e esperançoso. São José tem uma ligação muito forte com o
sertanejo. A esperança se renova", comentou.
CAICÓ
O
Dia de São José em Caicó e diversas cidades da região do Seridó foi
marcado por uma chuva aguardada com ansiedade pelos agricultores. Em
Caicó, as chuvas começaram na verdade na véspera do dia de São José. Na
segunda-feira, à noite, choveu na cidade e em diversas localidades da
região, principalmente na zona rural. Em alguns sítios, os registros
pluviométricos ultrapassaram a marca dos 100 milímetros, como foi o caso
da Fazenda Três Riachos em Jardim de Piranhas/RN.
Ontem, de
acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia - INMET, a chuva que
caiu em Caicó, atingiu entre 55,8 e 72 mm. Alguns pequenos agricultores
estão esperançosos com a chuva e esperam mais para os próximos dias."Nós
sabemos pela experiência que quando chove no dia de São José, é porque o
ano vai ser bom de inverno. Agora eu estou animado", disse Antônio
Medeiros, residente no sítio Piedade, zona rural de Jardim de
Piranhas/RN.
Deputados se pronunciam sobre agravamento da seca
A
situação de seca no Rio Grande do Norte é tema recorrente nos
pronunciamentos feitos pelos deputados durante as sessões na Assembleia
Legislativa. Na manhã de ontem os deputados Vivaldo Costa (PR) e Nélter
Queiroz falaram sobre as dificuldades que os municípios potiguares
estão passando. Vivaldo Costa chegou a destacar que a atual seca é, em
sua opinião, a pior que tem conhecimento. "Basta comparar os registros
de outras épocas", sugeriu.
Ao falar sobre o agravamento da
seca, o deputado José Adécio (DEM) mostrou um cálculo que, na sua
avaliação, demonstra como o problema poderia ser minimizado nos últimos
23 anos, quando houve três secas grandes no Nordeste, nos anos de 1983,
1985 e 2012: "se cada governo tivesse colocado R$ 500 mil no combate à
estiagem, teríamos R$ 11 milhões e 500 mil utilizados em prol dos
criadores e produtores", disse.
"A seca vem massacrando o
produtor e ao longo dos anos sabemos que seca nunca foi exceção, seca é
regra, mas nunca nos preparamos para este momento que precisa ter
cuidados da classe política", disse.
"Com esse cálculo pude ver
o descaso do poder público diante do problema e estou muito à vontade
para fazer essa crítica, inclusive porque fiz parte de instituições que
trabalham nessa área de combate à seca", disse José Adécio. O presidente
da Casa, deputado Ricardo Motta (PMN), garantiu apoio nas
reivindicações dos produtores rurais do RN quanto às medidas para
garantir a sobrevivência do rebanho potiguar dizimado pela seca.
Ontem
em Angicos a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do
Rio Grande do Norte (Fetarn) encerrou o "Grito da Terra", iniciado na
última quarta-feira, em São Paulo do Potengi. A Federação levou um
documento intitulado "Carta do campo potiguar" com reivindicações, entre
as quais estão o abastecimento imediato e contínuo das 75 mil cisternas
já construídas no Estado. "Viemos entregar o documento à governadora.
Infelizmente ela não veio. Vamos, agora, tentar marcar uma audiência",
colocou o presidente da Fetarn, Ambrósio Lins.
"É uma tristeza. É muito sofrimento"
O
pequeno agropecuarista Aldo Luiz Bezerra, 54 anos, contabiliza as
perdas com a estiagem que afeta o Rio Grande do Norte. A fazenda São
João, localizada na divisa entre os municípios de Angicos e Afonso
Bezerra, já foi um local de abundância. A produção de leite era farta e
não faltava plantação. Hoje, a realidade é bem diferente. "É uma
tristeza, meu filho. Choro só de lembrar os animais mortos", disse.
Nos últimos seis meses, nove cabeças de gado morreram na propriedade de
Aldo. A produção de leite despencou dos quase 80 litros por dia para
apenas 5. A água é escassa e é preciso comprar o líquido. "Tiro dinheiro
da alimentação dos meus filhos para poder comprar água. Se não fizer
isso, vai morrer tudo", contou. São R$ 140,00 para abastecer a cisterna
localizada no quintal de casa.
No curral, uma vaca que deu cria
no último sábado, dá sinais de fraqueza. Quando se deita, só levanta
caso o criador ajude. Os ossos estão à mostra. "Essa vaca era bem gorda,
mas agora a situação é essa. É muito sofrimento", lamentou Aldo
Bezerra. O agropecuarista contou também que as reservas de dinheiro da
família foram embora junto com o verde do pasto e água dos barreiros.
"Tinha R$ 10 mil guardado mas gastei tudo para não perder a fazenda",
explicou.
Faern faz críticas à morosidade na instalação de poços
Para
os pequenos agricultores, apenas a perfuração e instalação de poços já
minimizaria os efeitos da estiagem prolongada. Em 14 municípios
potiguares, a água só é fornecida através de carros-pipa, especialmente
no Alto Oeste. É o caso de Luís Gomes, Riacho de Santana, Água Nova,
Pilões, João Dias, Antônio Martins, Olho D'água dos Borges, Serrinha dos
Pintos, Dr. Severiano, Equador, Carnaúba dos Dantas, São José do
Seridó, Serra Negra e Paraná. São empregados 340 carros-pipa para
complementar o abastecimento em mais 129 cidades.
Atualmente,
segundo a Semarh, estão instalados 6 mil poços artesianos no Estado, a
maior parte destinados à pecuária e agricultura nas zonas rurais. Porém,
apenas 3.500 poços estão funcionando. Entre 2011 e 2012, o governo
instalou 150 poços artesianos. "Isso é muito pouco para se fazer em dois
anos. A média é de 6,25 poços por mês. A quantidade ainda é muito
pequena em relação à demanda", critica José Vieira, presidente da
Federação de Agricultura e Pecuária do RN (Faern). O custo para que o
restante dos poços seja colocado em operação pode chegar aos R$ 14
milhões.
José Vieira afirmou, no entanto, estar confiante de que a
situação dos agricultores possa mudar a partir da nomeação do novo
secretário estadual de Agricultura e da Pesca (Sape), Júnior Teixeira.
"É um bom nome. Espero que ele tenha condições de trabalhar. Estamos
confiantes".
Leonardo Rego promete obras estruturantes
Ontem,
o novo secretário estadual de Recursos Hídricos (Semarh), Leonardo Rego
anunciou a perfuração de mais 840 poços. "Estamos fazendo um trabalho
administrativo já com a bancada federal, de maneira consensual, para que
possa facilitar essa demanda", adiantou.
Leonardo Rêgo comentou
que o corpo técnico da secretaria está empenhado na elaboração dos
projetos estruturantes. "Alguns estão com trâmite burocrático bem
adiantado", garantiu. Ele citou a construção das barragens de Umarizeira
(Umarizal), orçada em R$ 20 milhões; de Oiticica e de Poço de Vara, em
Coronel João Pessoa.
No caso da Barragem de Oiticica, a
governadora irá assinar o convênio na próxima segunda-feira (25). A obra
custará R$ 311 milhões, sendo R$ 292 milhões do Orçamento Geral da
União (OGU) e R$ 9 milhões de contrapartida.