sexta-feira, 20 de abril de 2012

Juros mínimos não valem para todos

Andrielle Mendes - repórter Tribuna do Norte

Os juros bancários continuam caindo. Depois dos bancos públicos, foi a vez dos privados anunciarem redução das taxas para empréstimos. HSBC, Bradesco, Santander e Itaú foram os primeiros a seguir os passos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, que anunciou uma nova redução esta semana. Mas é preciso cautela. "As taxas mínimas não são para todos", alerta Tâmara Sousa, economista da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste). Na prática, os bancos não estão reduzindo suas taxas de juros, afirma o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Alexandre Chaia, em entrevista à Agência Estado. "Na verdade, os bancos estão colocando precondições para o cliente poder ter uma taxa mais baixa", disse.
Júnior SantosAs taxas mínimas para veículos estariam entre as que só se aplicam mediante o cumprimento de exigênciasAs taxas mínimas para veículos estariam entre as que só se aplicam mediante o cumprimento de exigências

Foi o que constatou a Proteste ao realizar simulações junto a agências bancárias na última semana no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em duas das agências visitadas, para comprar um carro pagando uma taxa de 0,98% ao mês o cliente precisava dar uma entrada de 50% e financiar o restante em um ano. "As condições são muito restritivas", analisa a economista. "Os clientes só sabem que não terão direito a taxa mínima depois que chegam às agências. Os bancos precisam deixar claro quem terá direito a quê", defende.

Antônio Santos, gerente de Assistência Técnica de uma concessionária na zona Sul de Natal, sabe bem o que é isso. Ele já planejava trocar o carro. A redução dos juros foi o empurrãozinho que faltava. Antônio escolheu o carro, reservou uma boa entrada e procurou o gerente. Na agência, soube que não teria direito a taxa mínima, de 0,99%, mesmo sendo cliente do mesmo banco desde 99, possuindo uma série de produtos e pagando quase o valor total do carro. "Fiquei frustrado", resume Antônio, que agora avalia se vai financiar o carro pelo banco. Para Tâmara Sousa, da Proteste, não dá para se iludir, achando que se vai ter acesso as taxas mínimas.

Alexandre Chaia, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), concorda. Em entrevista à Agência Estado, ele explicou que os bancos estão concedendo limites mínimos de juros apenas para seus clientes especiais. "Nem mesmo a Caixa e o Banco do Brasil reduziram todas suas taxas de juros linearmente para todo mundo. Reduziu para quem já está lá e para quem vai ser aprovado nas linhas de créditos deles", disse o professor do Insper, entrevista à agência.

Chaia critica a postura adotada pelo Ministério da Fazenda, que colocou os bancos privados na parede e praticamente os forçou a reduzir os juros. "O que não pode é o governo dizer que quer que reduza porque quer que reduza. O governo está jogando as margens dos bancos para baixo", defende. "O governo não pode querer forçar redução de juros por obrigação. Quem tem de decidir isso é o acionista e não o governo. Se o governo quisesse reduzir de verdade, abriria mão de parte do ganho dele nos impostos", completa, ainda em entrevista à Agência Estado. A Proteste já planeja uma nova visita aos bancos, desta vez aos privados. "Queremos saber se os clientes estão tendo acesso as taxas oferecidas", afirma Tâmara Sousa, economista da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. A data permanece sob sigilo.

Outro lado

Procurados pela equipe de reportagem, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal - os primeiros a anunciar a redução dos juros - preferiram não rebater as críticas. A superintendência da Caixa no Rio Grande do Norte optou por não se manifestar. A superintendência do Banco do Brasil no RN encaminhou uma nota, afirmando que "o Programa BOMPRATODOS beneficia diretamente mais de 44 milhões de empregados de empresas públicas e privadas que recebem salários pelos bancos, 24,7 milhões de beneficiários ou pensionistas do INSS que tiveram redução em linhas de crédito específicas no Banco do Brasil, e todos os 55 milhões de clientes pessoas físicas do BB, que passaram a contar com taxas reduzidas para financiamento de veículos e bens de consumo", trazendo os números nacionais. Nenhum dos dois superintendentes comentou se consideravam a medida restritiva.

Financeiras devem aderir aos cortes das taxasSão Paulo (AE) - Depois dos grandes bancos, agora é a vez de as financeiras cortarem as taxas de juros para não perder clientes. "Todas vão reduzir as taxas no limite do possível. No decorrer do mês que vem, vamos ter boas novidades", avisou Érico Ferreira, presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), que reúne 64 financeiras. Desde que o governo sacudiu o mercado de crédito duas semanas atrás e usou os bancos oficiais para forçar a redução dos juros, a competição se acirrou até entre a Caixa e o Banco do Brasil (BB). Quem saiu ganhando foi o consumidor, como o funcionário público João Paulo da Silva Barreto, de 30 anos.

Funcionário do Judiciário, ele acaba de fazer uma operação de portabilidade: levou um crédito consignado obtido no BB para a Caixa. "Valeu mudar porque a taxa de juros da Caixa é menor", disse Barreto, que não fechou a conta salário no BB. A taxa de juros mensal cobrada pela Caixa é de 1,2% e no BB de 1,37%. Isso dá uma redução de R$ 14 na prestação atual de R$ 1.430, de um empréstimo de R$ 45 mil, financiado em 40 meses.

Além das condições mais vantajosas de empréstimo, Barreto disse que optou pela migração porque pretende obter um outro financiamento para compra de imóvel. Por isso, ele acha é interessante ter conta na Caixa.

O vice-presidente de Atendimento e Negócios da Caixa, José Henrique Marques da Cruz, descreveu a "operação de guerra" que foi montada pelo banco para atender ao aumento significativo no número de clientes que houve em duas semanas. A partir de segunda-feira, todas as agências vão abrir uma hora mais cedo. "Deslocamos até funcionários de áreas 'meio' para o atendimento", contou. No dia 12 de maio, um sábado as principais agências vão funcionar só para atender o público e fazer simulações sobre as novas condições dos empréstimos.

O executivo ilustra com números o crescimento da procura por informações sobre crédito. Desde o dia 9 de abril até ontem, o site da Caixa recebeu 1,035 milhão visitações e realizou 421 mil simulações de crédito. O telemarketing com 350 funcionários, montado exclusivamente para informar sobre o novo pacote de crédito, recebeu 40.730 ligações.

Além da maior procura, há números vigorosos de aumento nos empréstimos.

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