Olhai os Lirios dos Campos! (Mt. 6.28)
Públio José – jornalista
Esta
é uma das citações mais conhecidas da Bíblia. Faz parte de um dos mais
belos momentos vividos pelos discípulos na companhia de Jesus. A
essência de seu discurso envolvia a questão da ansiedade das pessoas, já
naquele tempo, com a sobrevivência, com o vestir, o ter, o exibir. Na
sua palavra, Jesus exortava os presentes no sentido de não se
angustiarem tanto com as necessidades do dia a dia. Muito sabiamente,
Jesus já preparava as pessoas daquele tempo – e dos tempos atuais – a
respeito da importância de preservar sua qualidade de vida, não
permitindo a ocupação da mente com pesos em excesso nem com uma
configuração de vida super avaliada nas coisas materiais. Aliás, Jesus
também deu uma certa importância às demandas materiais de nossas vidas,
deixando bem claro, porém, de que nossa preocupação com essas coisas
deveria caminhar até um certo limite. A partir daí...
As palavras de Jesus lastreiam também
uma afirmação de fé. No momento em que fez essa afirmação era verão na
Palestina e nos campos, rigorosamente, não havia lírio algum. Jesus
tencionava, assim, puxar pela mente das pessoas, fazendo-as lembrar de
que, apesar da geografia árida, seca que elas tinham diante de si,
existia sempre a perspectiva de um tempo de beleza, de fartura, de
provisão. Ou por outra: mesmo quando a vida está em baixa, com
predominância da dor, da incerteza, da amargura, existe sempre a
perspectiva de surgir o outro lado da medalha. E, através da fé, um novo
tempo poderá ser alcançado. À frente de Jesus as pessoas estavam
confusas. Como enxergar lírios belíssimos, de uma textura luxuriante, em
meio à secura de um período de verão? Ou como enxergar uma nova
realidade de vida diante da escravidão materializada na presença do
senhorio romano?
“Olhai os lírios do campo!” Ao fazer
tal afirmativa, Jesus queria enlarguecer nossa visão, ampliar nossos
horizontes. Sabe-se que no campo existem armadilhas contra a vida. As
aves de rapina, os répteis, os rigores do inverno, o calor inclemente do
verão. Os predadores, os animais de grande porte, as ervas daninhas...
Apesar disso tudo, os lírios também surgem, emoldurando com sua beleza
uma nova realidade. O problema é quando o campo– em síntese, na ótica de
Jesus, uma alegoria da vida, do mundo – é visualizado somente através
das grossas lentes do negativismo gratuito. Apesar de todas as
adversidades da vida, há sempre a presença de algo belo a ser visto,
focalizado, priorizado. E que, diante de um vastíssimo leque de
sentimentos que a vida nos impõe, tais como o egoísmo, o individualismo,
a soberba, a arrogância, há sempre a chance de cultivarmos o belo, o
frutífero, o substancial, o edificante.
Ao que tudo indica, a planta que
Jesus nomeou em seu discurso como lírio é hoje conhecida com o nome
científico de “anemone coronária”. Tinha uma haste de uns 40 centímetros
e pétalas vermelhas, púrpuras, azuis, róseas ou brancas. Como se vê,
algo de uma beleza realmente estonteante em meio à aridez do solo
palestino. Segundo relatos históricos era uma planta de floração comum
na região, florescendo próxima ao tempo da colheita do feno. Devido à
sua beleza, já era usada em larga escala na decoração dos ambientes
requintados, bem como nas casas simples dos moradores do campo. Era, por
assim dizer, um referencial de beleza, de nobreza, de excelência
decorativa. Uma planta que realmente fazia a diferença. É nesse ponto
que quero destacar o eixo sobre o qual gira o ensinamento de Jesus.
Fazer a diferença. Priorizar sentimentos nobres sobre o negrume dos
valores cultivados atualmente.
Há momentos na vida em que a mente se
fecha. O horizonte divisado vai somente um pouco além das agruras do
dia a dia. O belo da vida se perde diante da feiúra do contexto da
existência. É preciso romper essa linha divisória que demarca a tristeza
da alegria, a angústia da paz, o caos da ordem, da serenidade, da
esperança. Quando o campo da existência está recheado de abutres,
répteis e ervas daninhas, é necessário se crer que, mesmo num campo
assim, a semente do lírio está lá, latente, pronta a brotar – a se fazer
presente. A irradiar a vida com a variedade de suas cores, a emergir
bela, firme, altaneira em meio à aridez da geografia social da
atualidade.“Olhai os lírios do campo” é em sua essência uma receita
inteligente de vida. Ou por outra, uma concepção ideal de vida para quem
deseja enxergar a realidade atual como algo mais do que um mero passar
de dias. Vai olhar?
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